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Superbactéria dificulta o controle da hanseníase no Brasil

Resistente a antibióticos, microrganismo dificulta o combate à doença que atinge 25 mil pessoas por ano no país.

Qualquer compêndio médico ensina que a hanseníase é doença causada pela bactéria Mycobacterium leprae e transmitida por meio de saliva e secreções do nariz. E mais: que, para tratá-la, bastar tomar o antibiótico rifampicina – durante seis meses no tipo paucibacilar (“poucos bacilos”) e um ano no multibacilar (“muitos bacilos”). Como o remédio elimina 90% dos bacilos, é preciso complementar com outro, o dapsona, que pode ser tomado em casa, uma vez ao dia, até o fim do tratamento. Nos casos multibacilares da doença, é acrescido um terceiro antibiótico, o clofazimina. No Brasil, a medicação é fornecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e administrada nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).

Parece simples de tratar, não? Nem tanto. Ainda mais depois da notícia de que alguns remédios não são mais tão eficazes quanto no passado.

Um estudo desenvolvido pela Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, e coordenada pelos pesquisadores Andrej Benjak e Stewart Cole descobriu que pelo menos oito cepas da Mycobacterium leprae desenvolveram resistência a dois desses antibióticos: o rifampicina e o dapsona. Para chegar à conclusão, Benjak e Cole investigaram o genoma de 125 cepas da bactéria, coletadas em 25 países, como Índia, Brasil e Indonésia, os recordistas em números de casos da doença. “Algumas cepas tornaram-se resistentes porque sofreram mutações”, explica Benjak.

Uma das hipóteses para isso, cogita o cientista suíço, é a longa duração do tratamento – dependendo da gravidade, pode levar de seis meses a um ano. “Muitos pacientes não aderem à terapia e desistem no meio do caminho”, alerta o médico. O uso incorreto de antibióticos, além de não liquidar a hanseníase, torna algumas cepas mais fortes e resistentes.

A explicação para o surgimento dessas ‘superbactérias’ está na teoria da seleção natural das espécies, do naturalista inglês Charles Darwin. Quando são expostas aos fármacos, um grupo pequeno de bactérias, as mais fortes e resistentes, luta para sobreviver e se reproduzir. Se conseguirem, a cada geração, darão origem a outras bactérias, cada vez mais fortes e resistentes. Dar o tratamento por encerrado, antes do tempo recomendado pelo médico, é apenas um dos muitos erros cometidos pelos pacientes. Outros são: tomar antibiótico sem prescrição médica, que sobraram de tratamentos anteriores ou, ainda, para tratar doenças que não são infecções bacterianas – gripe, por exemplo.

Mas o que pode ser feito diante de uma bactéria com alto nível de resistência a antibióticos? Uma das estratégias é a indústria farmacêutica desenvolver nova classe de antibióticos, ainda mais potente que a anterior. “Outra saída”, indica Benjak, “é testar drogas que já se mostraram promissoras contra outros patógenos”. E cita, como exemplo, a Mycobacterium tuberculosis ou bacilo de Koch, o agente causador da tuberculose. Chefe do Laboratório de Hanseníase do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Milton Ozório Moraes aponta uma terceira alternativa: o uso de adjuvantes. “São medicamentos que, embora não sejam usados no tratamento de infecções, contribuem com a melhora do sistema imune ou interferem com o metabolismo humano. Nisso, restringem o crescimento da bactéria”, explica.

Doença está longe de ter sido erradicada

Embora seja uma doença curável, a hanseníase, antigamente conhecida como lepra, está longe de ter sido erradicada. Muito pelo contrário. Em países da África, Ásia e América do Sul, virou problema de saúde pública. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), 200 mil novos casos são registrados por ano. Desses, 25 mil só no Brasil. No ranking mundial, ocupamos inglório segundo lugar: atrás da Índia e à frente da Indonésia. Cláudio Guedes Salgado, presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), contesta os dados oficiais. “O número de casos no Brasil é maior que o registrado. De três a cinco vezes mais”, estima o médico, que publicou o artig Os números oficiais da hanseníase no mundo são reais?, na revista The Lancet. “Como é possível que países em condições socioeconômicas piores possam ter controlado a doença?”, questiona.

Citada em livros como a Bíblia e em filmes como Ben-Hur, a hanseníase é uma das doenças mais antigas que existem. Na Idade Média, os “lazarentos” – termo derivado do nome do personagem bíblico Lázaro – eram obrigados a balançar sinos para alertar os habitantes das cidades de sua chegada. Em 1873, a lepra ganhou o nome de hanseníase em homenagem ao seu “descobridor”, o bacteriologista norueguês Gerhard Hansen (1841-1912). No Brasil, os portadores da doença eram “capturados” e mandados compulsoriamente para hospitais conhecidos como leprosários. Hoje, tudo mudou. O tratamento é ambulatorial, sem necessidade de internação. Após a primeira dose, não há mais risco de transmissão. Mas atenção: o tratamento só será 100% eficaz se não for interrompido pelo paciente. Caso contrário, pode causar lesões incapacitantes, como perda de sensibilidade, dificuldades motoras e deformidade de mãos e pés.

Mas por que motivos, em pleno século 21, ainda não eliminamos a hanseníase? O primeiro deles: é uma doença ainda pouco estudada. “A hanseníase é causada por uma bactéria que não se divide nos meios de cultura do laboratório. Por isso, seu isolamento e o entendimento de sua biologia são difíceis”, explica Milton Moraes. Outro: o tempo de reprodução é longo – são 15 dias contra apenas 24 horas da Mycobacterium tuberculosis, por exemplo. “Como a reprodução é lenta, qualquer tentativa de cultivo in vitro demora muito mais que as outras bactérias, que crescem rápido”, aponta Cláudio Salgado.

Tem mais: a falta de diagnóstico. Embora a detecção da hanseníase seja clínica, feita no consultório e sem necessidade de exames mais complexos, alguns médicos, principalmente os mais jovens, não sabem diagnosticá-la. “Muitos se formaram sem nunca ter ouvido falar dela na faculdade. Por essa razão, não estão capacitados para fazer o diagnóstico”, avisa Cláudio Salgado, da SBH. Há relatos de dermatologistas que já confundiram os sintomas da hanseníase com micose de pele, por exemplo.

Por essas e outras, o cenário não é dos mais animadores. Na década de 1990, quando o número de casos no mundo chegou a alarmantes 800 mil por ano, a OMS estabeleceu a meta de um caso para cada 10 mil habitantes. “À época, diversos países conseguiram eliminar a doença, mas o Brasil, não”, afirma Claudio Salgado. Três décadas depois, o país tem, até 2020, dois outros desafios: nenhuma criança diagnosticada com hanseníase e deformidades físicas, e menos de um caso diagnosticado com deformidades visíveis para cada um milhão de habitantes. “Mais uma vez, o Brasil não vai conseguir bater a meta. Primeiro, temos que melhorar o diagnóstico precoce. Só então, teremos condições de almejar o controle da doença!”, pondera.

Fonte: Vice

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